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TDAH: Transformando Desafios em Oportunidades

Você com certeza já ouviu falar do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade – o famoso TDAH – e, provavelmente, associando essa condição com dificuldades e limitações, como desatenção, impulsividade e hiperatividade. Mas e se eu te contar que, segundo pesquisas, essa condição neurocomportamental, quando bem gerenciada, pode trazer algumas vantagens?

Hoje quero te convidar a desafiar os estereótipos e descobrir um lado potencialmente positivo do TDAH.

O jornalista americano Penn Holderness encontrou em uma das características do TDAH uma vantagem para vencer o reality show “The Amazing Race”, levando 1 milhão de dólares para casa. Ele e sua esposa, Kim Holderness, participaram do programa que é conhecido por seus desafios complexos e exigentes que testam tanto o físico quanto o mental dos competidores em um ambiente de pressão constante. E foi o hiperfoco de Penn, uma característica comum em algumas pessoas com TDAH, que permitiu a ele uma imersão profunda nas tarefas da competição, fazendo com que ele conseguisse se concentrar intensamente em resolver os quebra-cabeças e completar as tarefas sob pressão. Durante o show, Penn foi capaz de aplicar essa capacidade de foco extremo para montar equipamentos ou navegar em rotas complicadas. Sua habilidade para mergulhar em estados de foco intenso, onde perdia a noção de tempo e ambiente externo, ajudou a equipe a avançar rapidamente e a manter uma vantagem competitiva.

Kim e Penn Holderness (campeões de ‘The Amazing Race 33’) fazem história como o casal mais velho a vencer

Muitas pessoas com TDAH relatam experiências semelhantes em suas vidas profissionais e acadêmicas. Quando encontram um assunto ou projeto que desperta seu interesse, conseguem dedicar horas ininterruptas de atenção e esforço. Esse nível de comprometimento, assim como a experiência de Penn, ilustra uma narrativa importante sobre o TDAH, destacando que, embora possa apresentar desafios, também pode levar a descobertas inovadoras e a um desempenho acima da média, desafiando a noção de que o TDAH é apenas uma desvantagem.

Entendendo o TDAH

Nossa primeira lição é entender um pouco mais do TDAH. Para começar, é importante ter em mente que nem todas as pessoas com TDAH apresentam hiperfoco, como Penn, e que esta habilidade pode ser situacional. Ou seja, nem sempre ela acontece quando e como a pessoa gostaria.

O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é um distúrbio neurobiológico que afeta crianças e adultos, criando dificuldades em manter a atenção, controlar impulsos e hiperatividade. Ele se caracteriza por três grupos principais de sintomas: desatenção, hiperatividade e impulsividade. A desatenção envolve dificuldade em manter o foco em tarefas ou atividades, esquecimento frequente e dificuldade em seguir instruções ou completar tarefas. A hiperatividade se manifesta como inquietação constante, dificuldade em permanecer sentado e uma tendência a falar excessivamente. Já a impulsividade pode estar relacionada à tomada de decisões rápidas sem considerar as consequências, interrupção frequente das conversas dos outros e dificuldade em esperar a sua vez.

Não é difícil imaginar o quanto as atividades de trabalho podem acabar mais complicadas para um profissional com TDAH, que podem ser vistos como desorganizados, desatenciosos ou impulsivos, o que pode gerar mal-entendidos e conflitos.

Além de tudo isso, os sintomas de TDAH podem trazer episódios de hiperfoco em tarefas não prioritárias – já que a pessoa não tem controle sobre isso, deixando tarefas importantes de lado, assim como prazos apertados e relacionamento interpessoal mais difícil. A capacidade de hiperfocar pode sim ser extremamente vantajosa, mas para isso é preciso que o objetivo desperte verdadeiramente o interesse, fazendo assim com que a pessoa consiga dedicar horas ininterruptas de atenção e esforço, resultando em alta produtividade.

Por isso, precisamos ter em mente que esse é um transtorno que, sim, apresenta desafios, mas também pode revelar talentos ocultos e vantagens quando bem administrado. Com o diagnóstico e tratamento corretos, é possível gerenciar os sintomas e utilizar as características do TDAH a seu favor, promovendo uma vida mais plena e produtiva.

TDAH e a Evolução Humana

Uma pesquisa recente da Universidade da Pensilvânia, divulgada em fevereiro deste ano, sugere que o TDAH pode ter sido uma estratégia de sobrevivência adaptativa de nossos ancestrais. A tática de alternar rapidamente entre diferentes tarefas, característica das pessoas com TDAH, pode ter sido vital para os caçadores-coletores no passado, evitando a exploração excessiva de recursos em um único local e expandindo a exploração para novas áreas. No estudo publicado na revista The Royal Society, os pesquisadores analisaram dados de 457 adultos, dos quais 206 apresentavam sintomas fortes de TDAH. Em um jogo virtual, os participantes tinham a missão de colher o maior número possível de frutos silvestres num determinado espaço de tempo, exigindo decisões rápidas e mudanças frequentes de estratégia. Os participantes com TDAH colheram mais frutas do que o outro grupo, demonstrando uma taxa de recompensa mais alta e melhor desempenho.

Esse comportamento adaptativo pode ser comparado à necessidade atual de inovação e flexibilidade no trabalho. Empresas valorizam cada vez mais a capacidade de se adaptar rápido e explorar novas ideias. Nesse contexto, será que as características associadas ao TDAH, como a impulsividade e a busca por novas experiências, podem ser vantajosas?

TDAH e a Criatividade

Uma descoberta interessante da ciência é a ligação entre a criatividade e o TDAH. Um estudo pioneiro sobre esse tema foi realizado em 2006 pela Universidade de Memphis, nos Estados Unidos. No estudo “Uninhibited imaginations: Creativity in adults with Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder”, os psicólogos Holly A. White e Priti Shah examinaram a criatividade em adultos com TDAH. Eles usaram testes de criatividade divergente, que avaliam a capacidade de criar várias soluções para um problema e descobriram que os participantes com TDAH se saíram melhor nesses testes em comparação com aqueles sem o transtorno. Isso sugere que pessoas com TDAH podem ter uma vantagem em criatividade divergente graças a tendência de pensar de maneira não convencional.

Essa criatividade divergente pode gerar facilidade para encontrar soluções inovadoras e pouco óbvias para problemas do dia a dia. O famoso pensar fora da caixa!

Muitos dos maiores inventores, artistas e pensadores da história tinham sintomas compatíveis com o que hoje reconhecemos como TDAH. Suas mentes inquietas e hiperativas os levaram a explorar territórios desconhecidos e a ver o mundo de maneiras que outros não conseguiam. Leonardo da Vinci, por exemplo, produziu algumas das artes mais icônicas do mundo, mas relatos históricos mostram que ele lutou para concluir suas obras. 500 anos depois de sua morte, o professor Marco Catani, do King’s College London, sugere que a melhor explicação para a incapacidade de Leonardo de terminar os projetos é que o grande artista pode ter tido Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).

Leonardo Da Vinci

Em um artigo na revista Brain, o professor Catani expõe as evidências que sustentam sua hipótese, com base em relatos históricos das práticas de trabalho e comportamento de Leonardo. Além de explicar sua procrastinação crônica, o TDAH poderia ter sido um fator na extraordinária criatividade e realizações do artista nas artes e na ciência. Segundo a pesquisa do professor, há evidências indiretas que sugerem que o cérebro de Leonardo funcionava de maneira diferente em comparação com a média daquela época. Ele era canhoto e provavelmente disléxico e tinha domínio da linguagem no lado direito do cérebro, todos traços  comuns entre pessoas com TDAH.

Outros dois fatores importantes que alimentam a criatividade das pessoas com TDAH são a resiliência e a curiosidade insaciável: a capacidade de se adaptar e superar desafios pode alimentar a criatividade quando se aprende a ver falhas como oportunidades de aprendizado; da mesma forma, a mente hiperativa de alguém com este transtorno frequentemente salta de ideia em ideia, levando a uma curiosidade insaciável e a uma paixão por explorar o novo.

Energia e Motivação

Outro aspecto recorrente em pessoas com TDAH é a hiperatividade, que geralmente cria dificuldades em sentar em silêncio ou ter tensão interna, estar irritado, ter problemas para relaxar, ter que se “mover” o tempo todo. É aquela dificuldade em ficar quieto, gerando uma necessidade de sempre fazer alguma coisa ou sempre ter a cabeça cheia de ideias, e não conseguir parar de pensar em coisas o tempo todo.

O estudo “Silver linings of ADHD: a thematic analysis of adults’ positive experiences with living with ADHD”, publicado na BMJ Open em 2023, trouxe um olhar diferente e muito interessante sobre esses aspectos. Utilizando uma metodologia qualitativa para explorar os aspectos positivos relatados por adultos com TDAH, os participantes do estudo descreveram várias vantagens associadas ao TDAH, organizadas em quatro temas principais: impacto dual das características do TDAH, mente não convencional, busca por novas experiências, resiliência e crescimento. A hiperatividade e a impulsividade, constantemente reforçados como aspectos negativos, foram apontados pelos participantes como pontos vantajosos que podem proporcionar altos níveis de energia e capacidade de realizar muitas atividades em um curto período de tempo.

A hiperatividade do TDAH está ligada a uma função cerebral específica, especialmente no córtex pré-frontal, que é responsável pelo planejamento e controle dos impulsos. Essa área pode ser menos desenvolvida em quem tem TDAH, levando a uma busca constante por estímulos e recompensas rápidas. Isso pode ser muito útil em ambientes que exigem criatividade, inovação e decisões rápidas. Pesquisas, como a de Nikos Makris, neurocientista e professor de Radiologia na Harvard Medical School, publicada em 2007, mostram que a estrutura cerebral dessas pessoas pode influenciar seu comportamento energético, criando um incentivo para que elas se envolvam em atividades que requerem concentração e agilidade mental.

6 práticas que vão te ajudar a transformar os desafios em oportunidades

Aqui vão algumas práticas que você pode implementar no seu dia a dia essas para te ajudar a transformar os desafios do TDAH em oportunidades de crescimento:

1. Crie Rotinas Estruturadas

Por que ajuda? Estabelecer rotinas diárias pode ajudar a organizar tarefas e horários, criando a sensação de estabilidade. Utilizar calendários, listas de tarefas e lembretes ajuda a manter o foco nas atividades importantes, reduz a procrastinação e facilita a gestão da atenção e do tempo, minimizando o impacto da desatenção e da impulsividade típicas do TDAH.

2. Organize seu Ambiente de Trabalho

Por que ajuda? Criar um ambiente que minimize distrações, como utilizar fones de ouvido com cancelamento de ruído, manter a mesa de trabalho organizada e escolher um espaço tranquilo, é essencial para melhorar a concentração. Reduzir os estímulos externos ajuda a focar nas tarefas, aumentando a produtividade e a qualidade do trabalho.

3. Fazer Boa Gestão do Tempo

Por que ajuda? Dividir tarefas grandes em etapas menores e estabelecer prazos realistas para cada uma delas melhora a produtividade e torna as tarefas menos intimidantes. Isso ajuda a evitar a sobrecarga e a procrastinação, permitindo manter um ritmo de trabalho constante.

4. Exercícios Físicos e Meditação

Por que ajuda? Fazer exercícios regularmente ajuda a canalizar a hiperatividade e melhorar a concentração. Técnicas de meditação e mindfulness reduzem a impulsividade e aumentam o foco, proporcionando um estado mental mais calmo e controlado, o que é benéfico para o gerenciamento dos sintomas do TDAH. E aqui vale uma dica extra, para praticar o mindfulness devemos priorizar a consistência e frequência mais do que a profundidade. Isso significa que é melhor que a pessoa faça um pouco por dia, do que muito tempo uma vez por semana. E para quem tem TDAH, pode começar com apenas 2 minutos por dia apenas e aos poucos adicionar incrementos de tempo, como um treino de musculação mesmo. Ninguém entra na academia no primeiro dia e já coloca 200kg no supino, não é?

5. Foco na Alimentação e Sono

Por que ajuda? Uma dieta equilibrada e noites de sono adequadas são essenciais para manter a mente e o corpo saudáveis. Evitar alimentos processados e ricos em açúcar é crucial, pois esses alimentos podem aumentar a hiperatividade e a desatenção. Bons hábitos alimentares e de sono são essenciais para melhorar a regulação emocional e cognitiva.

6. Utilizar com Consciência o Sistema de Recompensas

Por que ajuda? Recompensar-se ao concluir tarefas ou alcançar metas pode aumentar a motivação e o envolvimento com essas tarefas. Esse sistema reforça comportamentos positivos e cria uma associação entre o esforço e a recompensa, incentivando a continuidade das boas práticas de gestão do tempo e da produtividade.

Mudando a Narrativa

Devemos continuar a olhar para o futuro e a desafiar estereótipos ampliando nossa compreensão não apenas sobre o TDAH, mas também sobre diversos aspectos considerados adversidades em nossas vidas, criamos uma perspectiva de esperança e evolução. O exemplo de Penn Holderness, que transformou o hiperfoco em uma ferramenta poderosa para vencer desafios complexos, simboliza o potencial ilimitado que reside nas características únicas de cada pessoa.

Em vez de nos limitarmos a conceitos restritivos, podemos abraçar a ideia de que a diversidade nos oferece uma gama de vantagens adaptativas. Essas vantagens se traduzem em inovação, criatividade e resiliência. Reconhecer e valorizar as diferenças individuais não apenas promove uma visão mais inclusiva e positiva, mas também nos capacita a utilizar essas características como ferramentas para o crescimento pessoal e profissional.

Compreender e tratar o TDAH sob esta nova luz não é apenas uma mudança de perspectiva; é um convite para reavaliar e apreciar as diferenças que nos tornam singularmente capazes. Ao invés de focar nas limitações, podemos identificar e potencializar os aspectos positivos dessa condição.

Portanto, da próxima vez que você se deparar com um obstáculo profissional, experimente redirecionar sua mente. Em vez de se deixar levar pelo caminho da negatividade e acreditar que suas limitações o impedem de alcançar seus objetivos, pense em como os aspectos dessa adversidade podem servir como um trampolim, impulsionando-o sempre para frente. Ao fazer isso, não apenas superamos os desafios, mas também desbloqueamos um potencial criativo e resiliente que pode levar a realizações extraordinárias.

Adotar essa abordagem transformadora não só desafia estereótipos, mas também abre caminho para uma sociedade que valoriza e celebra a diversidade cognitiva, promovendo um ambiente onde todos têm a oportunidade de prosperar e contribuir.

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***Agradecimentos especiais aos Drs Fernando Hess e Ricardo Eid pela revisão do artigo e adequação dos termos médicos.***

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