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Produtividade X Saúde Mental: a interconexão entre mente e a eficiência no uso do nosso tempo

“O sol nasce para todo mundo. Todo mundo tem 24 horas no dia, por que algumas pessoas conseguem fazer tantas coisas e outras parece que não saem do lugar? O nome disso é produtividade. É como você se dá conta do seu tempo”.

Talvez você tenha se deparado com esse discurso nas redes sociais no fim do ano passado. Esse trecho, parte de uma palestra de Lívia Aragão, trouxe à tona reflexões sobre produtividade e o uso do tempo. A polêmica gerada nas redes sociais destaca a relevância da discussão sobre por que, mesmo que todos tenhamos as mesmas 24 horas no dia, alguns conseguem ser mais produtivos do que outros.

A visão tradicionalmente difundida é a de que uma gestão eficiente do tempo é a chave para a produtividade. A habilidade de organizar tarefas, evitar procrastinação e priorizar atividades é, sem dúvida, crucial. Contudo, essa abordagem não engloba a totalidade dos elementos que compõem a verdadeira produtividade.

Produtividade não é apenas uma questão de cumprir tarefas em determinado intervalo de tempo, mas também está diretamente relacionada à saúde mental: aspectos como motivação, engajamento, criatividade, colaboração e bem-estar emocional também desempenham papéis importantes na capacidade de sermos produtivos. A compreensão dessa interconexão é essencial para entendermos como funciona nossa produtividade.

É preciso ir além da visão simplificada que associa produtividade apenas ao gerenciamento do tempo.

A Multidimensionalidade da Produtividade: Muito Além do Tempo

É importante destacar que problemas de saúde mental podem levar tanto ao absenteísmo (faltas no trabalho) quanto ao presenteísmo (estar presente no trabalho, mas com desempenho reduzido), ambos contribuindo para impactos na produtividade organizacional.

Dito isso, lembro de um profissional de uma grande empresa de software que conheci a alguns anos atrás. Por motivos de confidencialidade, vou dar um nome fictício a ele. Então, Pedro (nome fictício), que era conhecido por sua eficiência e alegria no trabalho, costumava chegar cedo ao escritório, cumprimentava todos por ali e começava o dia já de cabeça em seus projetos. Ele era visto como  uma pessoa muito focada e por muitas vezes, nem que eu quisesse, conseguia tirar o foco dele da tela do computador. Seu espaço de trabalho era um reflexo de como ele era: duas telas de computador cheia de códigos e coisas que eu não conseguia entender. Ele até trouxe uma pequena planta para dar um toque de natureza naquele mundo dele.

Foto ilustrativa da história

O problema foi que nos últimos meses do tempo que passamos juntos no mesmo ambiente de trabalho, sua rotina mudou drasticamente. Ele começou a chegar atrasado, seu cumprimento matinal começou a ter um tom de desânimo. Notava que sua mesa passou de uma organização boa para uma completa zona, com papéis espalhados e a planta que tinha deixado ali, ficou completamente murcha. Ele frequentemente ficava assustado quando alguém passava atrás da sua mesa com medo de que o estivessem observando. Imagino eu que ele poderia estar fazendo coisas não relacionadas ao trabalho e percebia que começava a ter algumas tendências de comportamento de procrastinação.

Pedro passava horas olhando para a tela, mas sua entrega e comprometimento com prazos começou a cair. Os relatórios que antes eram entregues com antecedência, passaram a ser finalizados no último minuto. Ele parecia exausto, apesar de fazer menos, e sua expressão era frequentemente perdida em pensamentos, refletindo uma mistura de frustração e apatia. Você já percebeu acontecer isso com alguém perto de você? Ou mesmo, já sentiu isso na pele em algum momento da vida?

Foto Ilustrativa da história acima

Esse é exatamente o exemplo de que o problema vai além da gestão do tempo. Existe uma pressão constante, uma ansiedade que antes não existia. Noites mal dormidas e uma sensação de sobrecarga tornam-se companheiros frequentes. A preocupação com as expectativas elevadas no trabalho começa a minar a confiança. Esse estado psicológico influencia diretamente a capacidade de realizar tarefas de forma eficaz.

A pesquisa intitulada “O Papel da Saúde Mental na Produtividade no Trabalho: Uma Revisão Crítica da Literatura”, publicada no PubMed, traz uma análise abrangente dessa relação entre saúde mental e produtividade no trabalho. Este estudo crítico, publicado na revista “Applied Health Economics and Health Policy” em março de 2023, examinou a relação entre saúde mental e perda de produtividade. A revisão envolveu a identificação de estudos relevantes através de buscas estruturadas nas bases de dados MEDLINE e EconLit, focando em estudos que examinaram a produtividade relacionada ao trabalho entre adultos em idade produtiva. A pesquisa encontrou evidência clara de que a saúde mental precária, principalmente medida como depressão e/ou ansiedade, está associada à perda de produtividade, incluindo absenteísmo e presenteísmo.

Um dos principais impactos que resultam desses desafios mentais frequentes no ambiente de trabalho é a diminuição na capacidade de concentração e foco. Quando confrontados com tais desafios, os colaboradores muitas vezes enfrentam dificuldades em manter a atenção em tarefas específicas, o que pode comprometer a qualidade e a eficiência do seu trabalho. Além disso, a preocupação e o estresse excessivos podem desgastar a habilidade de tomar decisões. Isso ocorre devido a um comprometimento mental que limita a capacidade de processar informações de maneira clara e objetiva, essencial para tomar decisões ponderadas. Este cenário também é marcado por inquietude, ansiedade e, ocasionalmente, hiperatividade – sintomas que incluem falta de atenção, inibição alterada da resposta, falta de controle dos impulsos e falhas de memória. Estes sintomas não apenas prejudicam o desempenho profissional, mas também causam dificuldades no âmbito pessoal e social, como a incapacidade de permanecer concentrado durante o trabalho ou irritação fácil com colegas e supervisores.

Além disso, o estresse crônico pode diminuir a motivação para realizar atividades profissionais, fundamental para o engajamento e sucesso no trabalho. Quando os colaboradores estão desmotivados devido ao excesso de estresse, eles demonstram menos interesse e dedicação às suas responsabilidades, resultando em um desempenho inferior. O medo de falhar pode nos paralisar diante de tarefas importantes, afetando nosso desempenho e, em alguns casos, causando até sintomas físicos como dores de cabeça ou de estômago. Portanto, o estresse em excesso tem um efeito cascata que pode afetar profundamente não só o desempenho profissional e a produtividade, mas também o bem-estar geral.

Aqui vale uma ressalva importante: O estresse situacional, aquele que nos ajuda a focar e atingir graus de excelência no que fazemos, é bom. Neste caso, a sua principal característica é que reconhecemos os estressores, sabemos o que precisamos fazer para resolvê-los e, principalmente, temos todos os recursos necessários para fazer isso. Portanto, no momento em que o estressor deixa de existir ou o problema em si foi resolvido, nós conseguimos relaxar e voltar a mente para o estado natural. Este tipo de estresse, além de não gerar problemas de saúde, também nos impulsiona na vida. O problema é que, muitas vezes, não percebemos quando o estresse sai de controle e começa a se tornar crônico. Essa falta de percepção é de fato o maior problema. E é por isso que precisamos treinar a nossa mente para que essa habilidade esteja presente a todo momento.

Assim como sempre digo que ambientes mentais saudáveis são propícios ao desenvolvimento de ideias inovadoras, o estresse crônico pode inibir essa capacidade, limitando a imaginação e a resolução de problemas. Em resumo, o que quero dizer é que um estado mental saudável é um catalisador para o florescimento de habilidades essenciais, enquanto problemas de saúde mental podem representar obstáculos significativos.

Caso se interesse pelo tema, veja esse vídeo, parte de uma entrevista com o Michael Carroll, ex-VP da Disney nos EUA e cuja visão vai de encontro a este tema.

Saúde emocional no trabalho

Revolucionando a Produtividade

Ainda hoje, a produtividade é frequentemente medida pela quantidade de trabalho que fazemos em um período específico. No entanto, com a evolução do ambiente de trabalho, torna-se obrigatório que as empresas repensem suas abordagens para manterem-se relevantes. O conceito de gestão da atenção, destacado como uma das habilidades de produtividade mais essenciais do século 21, surge como uma resposta a essas mudanças.

Na era moderna, marcada por constantes interrupções e fluxo incessante de informações, a gestão da atenção permite viver uma vida de escolhas ao invés de reações e distrações, defendendo-nos contra os danos que nosso ambiente sempre ativo causa à mente. Isso inclui treinar a mente para melhorar as habilidades como atenção, foco e presença. Ao fazer isso as pessoas tendem a ter mais facilidade para lidar com distrações, manter foco prolongado onde desejam e, então, conseguem gerenciar o tempo, ou melhor dizendo, as tarefas que precisam realizar durante os blocos de tempo do dia de trabalho.

A incorporação de práticas de mindfulness é uma das formas de treinar a mente para a gestão da atenção. Como mostra o estudo ‘The Impact of Mindfulness Meditation on Workplace Productivity and Employee Well-Being’, feito pela Kampala International University, que demonstra que essa é uma estratégia eficaz para melhorar a concentração e a clareza mental dos colaboradores, contribuindo para a qualidade do trabalho realizado. O estudo evidencia ainda que a meditação leva a uma redução de burnout, ansiedade e depressão, ao mesmo tempo em que melhora a saúde mental, a concentração, a flexibilidade cognitiva e a satisfação no trabalho. Além disso, revela benefícios para os empregadores, como custos de saúde reduzidos, melhores taxas de retenção de funcionários e melhora  do desempenho no trabalho.

Entendendo o tempo da produtividade

Outro aspecto vital para melhorar a nossa produtividade e saúde mental ao mesmo tempo é entender quais são os momentos do dia em que estamos com melhor capacidade mental para fazer determinadas tarefas e, quais os momentos do dia em que temos uma baixa capacidade cognitiva. Eu sempre gosto de lembrar às pessoas que o cérebro não é um processador. Nós não o ligamos de manhã e ele fica funcionando de maneira contínua até o fim do dia, quando o desligamos para dormir. Nós trabalhamos em ciclos e somos muito diferentes uns dos outros. E um dos conceitos mais interessantes que já tive contato em relação a esse tema é o dos Cronotipos.

Cada indivíduo tem um cronotipo diferente, que é essencialmente um padrão natural de períodos de alerta e sono ao longo do dia. Para aprofundar a questão do cronotipo e sua influência na produtividade, podemos utilizar as descobertas do estudo “Being robbed of an hour of sleep: The impact of the transition to Daylight Saving Time on work engagement depends on employees’ chronotype”, conduzido por pesquisadores da Universidade de Mannheim e da Universidade de Washington. Este estudo, que oferece insights específicos sobre como os cronotipos influenciam o trabalho, descobriu que a transição para o Horário de Verão, por exemplo, afeta significativamente o engajamento no trabalho, com impactos diferentes dependendo do cronotipo da pessoa. Notou-se que funcionários com cronotipos mais tardios experimentam uma diminuição excessiva no desempenho após a transição, em comparação com aqueles com cronotipos mais diurnos. Isso sugere que respeitar e ajustar as agendas de trabalho para alinhar com os picos naturais de energia de cada cronotipo pode não apenas aumentar a performance geral, mas também melhorar o bem-estar e saúde mental no trabalho. Por exemplo, permitir horários de trabalho mais flexíveis para acomodar as variações individuais nos cronotipos pode ser algo a se pensar.

Para promover essas mudanças, é essencial priorizar a conscientização e a adoção de programas extensivos que visem a transformação de hábitos, indo além da mera transmissão de conhecimento técnico. É crucial adaptar rotinas de produtividade para atender às necessidades individuais de cada pessoa, com especial atenção aos seus cronotipos. Esses passos representam um investimento valioso no capital humano, impulsionando não só a produtividade, mas também priorizando um ambiente de trabalho mais saudável e equilibrado. Ao incorporar estas estratégias, as organizações não só terão melhores resultados, mas promoverão o bem-estar integral da equipe. Isso repercute positivamente na cultura organizacional, contribuindo para o sucesso e a sustentabilidade da empresa.

A Verdadeira Produtividade é um Reflexo do Bem-Estar Integral

À medida que avançamos em um mundo dinâmico e em constante mudança, as empresas enfrentam o desafio de adaptar suas estratégias para manter não só a produtividade, mas também o bem-estar de seus funcionários. Nessa jornada em direção a uma compreensão mais ampla da produtividade, a conclusão que fica é essa: incentivar uma cultura que valorize o bem-estar psicológico é fundamental. Reconhecer que todos enfrentam desafios únicos é o primeiro passo para a construção de espaços de trabalho mais empáticos e inclusivos.

É preciso ir além das práticas tradicionais e investir em treinamento de habilidades emergentes, como a gestão da atenção, práticas de mindfulness direcionadas ao ambiente de trabalho e o entendimento de como a mente funciona na prática. Estas não são apenas técnicas ou conhecimentos para aumentar o desempenho geral das pessoas e da organização, mas também estratégias essenciais para criar um ambiente de trabalho que promova a saúde mental. Implementar tais mudanças é um passo vital para refletir positivamente na cultura organizacional e assegurar o sucesso sustentável no mercado competitivo de hoje.

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