Estamos em uma crise de saúde mental? Por que o século XXI está deixando tanta gente à beira do colapso

Young beautiful businesswoman thinking, working with laptop at workplace in office.

Em um estúdio simples, em algum lugar dos Estados Unidos, um psiquiatra conversa com um guru indiano sobre aquilo que deveria ser o maior tesouro do século XXI: a mente humana. Poderia ser só mais uma transmissão entre tantas conversas sobre espiritualidade e autoajuda nas redes. Mas um dado atravessa o diálogo como um soco: mais de 1 bilhão de pessoas vivem hoje com algum transtorno de saúde mental, da ansiedade à depressão grave, e esses números continuam subindo.

Esse alerta não é novo, mas está mais nítido. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, em 2019, cerca de 15% dos adultos em idade de trabalho têm algum transtorno mental. A depressão e a ansiedade, juntas, fazem o mundo perder cerca de 12 bilhões de dias de trabalho por ano, o que representa um custo estimado em 1 trilhão de dólares em produtividade perdida. Ao mesmo tempo, apenas uma parte pequena das pessoas com depressão recebe um tratamento minimamente adequado.

No Brasil, o efeito aparece com força. Em 2024, foram mais de 472 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais e comportamentais, segundo dados oficiais. Esse número representa um aumento de 68% em relação a 2023 e é o maior da década. Empresas convivem com falta de focoesgotamentoafastamentos repetidos e dificuldade para manter equipes em áreas de alta pressão.

Apesar disso, governos destinam, em média, cerca de 2% dos seus orçamentos de saúde para a saúde mental. Em muitos países de baixa renda, o gasto anual por pessoa não chega a um dólar. Em países ricos, ele é maior, mas ainda muito distante do tamanho do problema.

Não se trata apenas de um “assunto de saúde”. A expansão rápida e contínua do sofrimento psíquico é um teste da capacidade das sociedades de se governarem, de educar suas crianças, de organizar o trabalho e de distribuir riscos em um mundo em que as fronteiras entre on-line e off-linelocal e globalcrise e oportunidade estão cada vez mais misturadas.

Quantas mentes em sofrimento são necessárias para chamar isso de crise?

Durante muito tempo, a saúde mental foi vista como algo “à parte”: tema de consultórios, hospitais psiquiátricos, manchetes pontuais e conversas cheias de preconceito. Essa fase está acabando. Hoje, os números mostram uma realidade difícil de ignorar.

Relatórios recentes da OMS indicam que mais de 1 bilhão de pessoas no mundo vivem com algum transtorno de saúde mental, incluindo depressão, ansiedade, transtornos bipolares, esquizofrenia e dependência de substâncias. Isso afeta não só a qualidade de vida, mas também a expectativa de vida, as relações familiares e o desempenho no trabalho.

As projeções sobre depressão são especialmente preocupantes. Estudos que analisam a carga global de doença indicam que, até 2030, a depressão estará entre as principais causas de perda de anos de vida produtiva no planeta, ao lado de doenças cardíacas e de algumas infecções graves. Em termos simples: a forma como as pessoas estão sofrendo emocionalmente tende a pesar tanto quanto muitos problemas físicos que sempre dominaram a atenção da medicina.

A economia já sente esse impacto. Em países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), estimativas apontam que os custos ligados a problemas de saúde mental, como queda de produtividade, afastamentos prolongados, aposentadorias precoces, gastos com saúde e benefícios sociais, podem passar de 4% do PIB. Empresas enxergam isso no dia a dia, na dificuldade de manter equipes estáveis e na perda de desempenho em áreas que dependem de alta concentração e criatividade.

No Brasil, além do aumento de afastamentos por depressão e ansiedade, cresce a preocupação com o sofrimento emocional de crianças e adolescentes. Relatórios de instituições públicas e de organizações internacionais mostram que os jovens se tornaram um grupo especialmente vulnerável, com mais sinais de tristeza profunda, automutilação e pensamentos suicidas. Um exemplo é a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2019), feita pelo IBGE em parceria com o Ministério da Saúde, que identificou percentuais importantes de estudantes do 9º ano relatando tristeza frequentesolidão e ideação suicida em todo o país. Outro exemplo é o relatório do UNICEF sobre saúde mental de crianças e adolescentes, que estima que pelo menos uma em cada sete pessoas entre 10 e 19 anos no mundo vive com algum transtorno mental, reforçando a ideia de que essa faixa etária está no centro da crise.

Mesmo assim, o dinheiro investido em saúde mental permanece muito abaixo do necessário. Em média, países destinam menos de 2% de seus orçamentos de saúde para essa área, e boa parte ainda vai para hospitais psiquiátricos, modelos que nem sempre dialogam com prevenção e atenção comunitária. Em países pobres, o gasto anual por pessoa é irrisório. Em muitos lugares, não há sequer um profissional de saúde mental para cada 100 mil habitantes.

Nossos cérebros conseguem acompanhar a velocidade do mundo?

Uma explicação comum para a crise mental é biológica: fala-se em genes, neurotransmissores, circuitos cerebrais “desajustados”. Tudo isso tem sua importância. Mas há uma pergunta incômoda: se a biologia muda devagar, por que a explosão de casos acontece em poucas décadas?

Uma parte grande da resposta tem a ver com a velocidade da mudança social e tecnológica. Nossos cérebros foram moldados ao longo de centenas de milhares de anos para lidar com mudanças graduais: estações do ano, variações de colheita, crises pontuais… Agora, quase tudo muda ao mesmo tempo, o tempo todo.

O que antes era esperado aos 30 anos, estabilidade profissional, decisões sobre família, papel social, passou a recair sobre jovens de 18 ou 20. Ao mesmo tempo, crianças de 10 ou 12 anos são expostas a notícias de guerras, crises climáticas e desastres, além de passarem horas por dia em ambientes digitais onde são comparadas com outras crianças e com adultos o tempo inteiro.

Pesquisas em sociologia da juventude mostram que os conflitos atuais deixaram de ser apenas por recursos materiais (como emprego e moradia) e passaram também a ser por identidadepertencimento e reconhecimento. Redes sociais e plataformas digitais, movidas por algoritmos de recomendação, reforçam essa disputa simbólica: a linha do tempo privilegia conteúdos que geram emoção fortepolêmicamedo e indignação, porque isso mantém as pessoas por mais tempo conectadas.

Antes da pandemia da covid-19, indicadores de depressão e ansiedade já cresciam entre adolescentes e jovens adultos em vários países. A pandemia piorou esse quadro, afetando especialmente mulheresjovenspessoas de baixa renda e grupos já em situação de vulnerabilidade. O fechamento de escolas, a perda de convivência presencial e o medo de adoecer ou perder familiares criaram um terreno fértil para crises emocionais.

O efeito dessa combinação é duplo. De um lado, o mundo cobra mais: acompanhar informação em ritmo acelerado, conviver com incertezas econômicas, mudar de carreira mais vezes, se adaptar a tecnologias novas, viver em cidades estressantes. De outro lado, a experiência do tempo fica quebrada: é difícil organizar a própria vida em uma narrativa coerente quando tudo acontece na mesma tela: trabalho, notícias, conversas, compras, entretenimento.

A mente tenta construir uma história lógica no meio desse turbilhão de informações. Em muitas pessoas, essa tarefa se torna desgastante demais.

O que acontece quando as antigas “âncoras” da vida se desfazem?

A velocidade do mundo seria menos destrutiva se estivesse apoiada em estruturas sociais firmes. O problema é que essas estruturas, as chamadas “âncoras emocionais”, também estão se desfazendo.

Família, religião, comunidade local, sindicatos e associações de bairro foram, durante muito tempo, fontes de sentido e de proteção emocional. Hoje, em muitas sociedades, esses espaços estão enfraquecidos.

As famílias mudaram. As pessoas se casam mais tarde, têm menos filhos, se separam mais. A mobilidade geográfica é maior, o que pode significar oportunidades, mas também laços menos duradouros com vizinhos, parentes e amigos de infância. Em alguns países, idosos vivem sozinhos; em outros, jovens adultos seguem na casa dos pais sem conseguir autonomia financeira, o que prolonga tensões e dependências.

A religião, que muitas vezes oferecia rituais de passagem, apoio comunitário e um conjunto de valores compartilhados, perdeu força em partes do mundo, especialmente entre jovens urbanos. Em muitos contextos, não há mais uma linha clara do que significa “virar adulto”. A entrada na vida adulta deixa de ser marcada por momentos nítidos (como casamento, emprego estável, filhos) e se transforma em um processo longoconfuso e, muitas vezes, solitário.

É verdade que, em outros lugares, instituições religiosas seguem fortes ou até ganham poder político, especialmente em debates sobre família, moralidade e costumes. Mas isso nem sempre significa proteção psicológica. Em ambientes muito polarizados, templos, igrejas e grupos de fé podem ser, ao mesmo tempo, fonte de acolhimento e palco de conflitos intensos.

Tudo isso alimenta um tipo de insegurança emocional difícil de nomear. As pessoas passam a ter muitas opções de como viver, o que em tese é bom, mas com poucas referências estáveis. A liberdade de escolher vira um peso quando a pessoa não tem apoios internos e externos suficientes para tomar tantas decisões e, para lidar com o medo de “escolher errado”.

Não é à toa que a expressão “crise de ansiedade” se tornou tão comum: aparece em conversas de trabalho, em séries de TV, em letras de música, em desabafos nas redes sociais.

O ambiente em que vivemos está ajudando ou atrapalhando nossa mente?

O mal-estar atual não é apenas psicológico ou social. Ele também é influenciado pelo ambiente físico em que vivemos.

Ao longo do século XX, a agricultura se industrializou. Isso permitiu aumentar a produção de alimentos, mas teve custos para o solo. Diversos relatórios técnicos apontam que uma parte importante das terras agrícolas do mundo mostra sinais de desgaste: perda de matéria orgânica, compactação, erosão e queda da biodiversidade. Isso significa que, aos poucos, o solo produz alimentos mais pobres em alguns nutrientes.

Micronutrientes como magnésio, zinco, ferro, vitaminas do complexo B e ácidos graxos ômega-3 são essenciais para o bom funcionamento do cérebro. Quando a dieta é baseada em alimentos ultraprocessados e em produtos que priorizam quantidade e durabilidade, e não qualidade nutricional, as pessoas podem ficar mais vulneráveis a desequilíbrios que afetam humor, energia e clareza mental. Estudos nessa área ainda estão em andamento, mas já sugerem ligações importantes entre carências nutricionais e sintomas de depressão e ansiedade. Uma revisão publicada em 2023 na revista Nutrients, por exemplo, analisou a relação entre deficiências de nutrientes específicos e risco de depressão e concluiu que baixos níveis de vários micronutrientes, incluindo vitaminas do complexo B, zinco, magnésio e ômega-3, estão associados a maior probabilidade de quadros depressivos.

Além disso, estamos expostos a um conjunto de substâncias químicas que praticamente não existiam, em grande escala, na maior parte da história humana. Pesticidas, metais pesados, microplásticos e substâncias que interferem em hormônios estão presentes na água, no ar e em muitos alimentos. Relatórios de agências reguladoras e de organizações independentes mostram aumento da contaminação por agrotóxicos em águas superficiais e em alimentos, inclusive em países que são grandes produtores agrícolas. No Brasil, por exemplo, o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA), coordenado pela Anvisa, divulga periodicamente resultados de monitoramento e têm encontrado resíduos de diferentes pesticidas em uma parte significativa das amostras de alimentos de origem vegetal consumidos pela população.

Nada disso quer dizer que a crise de saúde mental seja, antes de tudo, uma questão de “veneno” ou “falta de vitamina”. Mas isso ajuda a desenhar um quadro no qual o corpo e o cérebro das pessoas são expostos, dia após dia, a combinações de pouca nutrição de qualidade e muita substância estranha. O cérebro, que representa só 2% do peso corporal, mas consome cerca de 20% da energia em repouso, é muito sensível a qualquer alteração metabólica.

Como se não bastasse, há também a “poluição de informação”. A dieta mental de muitas pessoas é composta de notícias negativas, discussões agressivas, comparações constantes e doses diárias de medo e indignação. Plataformas digitais são desenhadas para prender a atenção, e o conteúdo que mais prende costuma ser emocionalmente carregado.

O resultado é um sistema nervoso que quase não descansa: cafeína para acordarultraprocessados para aguentar o diaredes sociais para evitar o silênciopouco sono para dar conta de tudo. A palavra “esgotamento” deixa de ser um exagero e passa a descrever com precisão o que muita gente sente. Do ponto de vista da neurociência, isso significa manter o organismo em estado de alerta contínuo: o estresse crônico ativa o eixo hipotálamo–hipófise–adrenal e aumenta de forma prolongada a liberação de cortisol, hormônio que, em excesso, está ligado a perda de memória, dificuldade de atenção e alterações de humor, por afetar regiões como o hipocampo e o córtex pré-frontal. Ao mesmo tempo, dormir pouco ou mal compromete a “limpeza” de resíduos no cérebro, piora o raciocínio, desregula emoções e aumenta a inflamação no corpo, elevando o risco de ansiedade, depressão e várias doenças físicas. Quando a alimentação é rica em ultraprocessados, o quadro se agrava: esse padrão de dieta está ligado a mais inflamação, alterações do intestino e maior chance de sintomas de depressão e ansiedade, o que fecha um ciclo em que corpo e mente se mantêm em estado de desgaste permanente.

Quando a vida vira piloto automático, o que acontece com a nossa liberdade de escolha?

O guru indiano da abertura do texto costuma dizer que, por trás dos muitos diagnósticos psiquiátricos, existe um ponto comum: a compulsividade. Trata-se de Sadhguru (Jaggi Vasudev), yogi e escritor indiano nascido em 1957, fundador da Isha Foundation, organização sem fins lucrativos que oferece programas de yoga e ações sociais e ambientais em vários países, e que já discursou em fóruns como a ONU e o Fórum Econômico Mundial. Ele é autor de livros que entraram em listas de mais vendidos, como Inner Engineering e Karma, e tornou-se uma das vozes mais influentes da espiritualidade contemporânea, ainda que também seja alvo de críticas por algumas afirmações consideradas pouco alinhadas ao consenso científico. Para ele, o sofrimento mental começa quando o pensamento deixa de ser uma ferramenta a serviço da pessoa e passa a comandá-la, isto é, quando a mente “pensa sozinha”, repetindo padrões negativos, sem que a pessoa sinta que tem escolha.

A ciência não usa os mesmos termos, mas observa fenômenos parecidos.

No transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), por exemplo, os pensamentos intrusivos e os comportamentos repetitivos parecem “invadir” a mente. Em dependências, seja de substâncias ou de comportamentos, circuitos de recompensa do cérebro se ativam de forma automática diante de determinados estímulos. Em quadros de ansiedade generalizada, a pessoa passa horas ruminando preocupações que não consegue desligar, mesmo sabendo que elas estão exageradas.

O ambiente digital atual reforça esse tipo de funcionamento. Plataformas são desenhadas para aproveitar justamente essas brechas da mente. A combinação de notificações, rolagem infinita, recompensas imprevisíveis (o próximo vídeo pode ser ótimo) e validação social (curtidas, comentários, compartilhamentos) cria um ciclo no qual é muito fácil entrar e muito difícil sair. Com o tempo, checar o celular a cada poucos minutos se torna automático. Responder mensagens imediatamente vira reflexo. Ver “só mais um vídeo” é quase irresistível. Muitas pessoas descrevem a sensação de não conseguir se desconectar, mesmo quando querem.

Quando a mente passa grande parte do dia nesse modo automático, a sensação de comando diminui. A pessoa deixa de sentir que escolhe, de fato, o que pensa, o que vê e o que faz com o próprio tempo. Essa perda de sensação de controle, mais do que a presença ou não de um diagnóstico formal, pode ser o verdadeiro centro da crise contemporânea.

Quanto custa, em dinheiro, um mundo que não cuida da própria mente?

Mesmo que alguém não se sensibilize com o sofrimento humano, há um argumento que é difícil ignorar: o financeiro.

Relatórios da OMS, da OCDE e de bancos de desenvolvimento apontam na mesma direção: transtornos mentais como depressão e ansiedade, somados a outros problemas de saúde, geram perdas enormes de produtividade e aumentam gastos públicos e privados. A OMS calcula que ansiedade e depressão, sozinhas, fazem o mundo perder cerca de 1 trilhão de dólares por ano em produtividade. Estudos da OCDE estimam que problemas de saúde mental, no sentido amplo, podem representar mais de 4% do PIB em vários países, quando se somam menos produtividade, ausência no trabalho, desemprego, gastos com saúde e benefícios sociais.

Empresas começam a entender que esse tema não é apenas “coisa do RH” ou de responsabilidade social, mas uma questão central de gestão de risco. Grandes investidores pressionam companhias de tecnologia, varejo e serviços a mostrar políticas concretas de apoio psicológico, depois de constatar que a maioria responde apenas de forma pontual, com ações isoladas e sem estratégia clara.

Apesar de tudo isso, o dinheiro destinado à saúde mental ainda é pouco e mal distribuído. Como já mencionado, em muitos países menos de 2% do orçamento de saúde vai para essa área. Em vários lugares, boa parte desse valor se concentra em hospitais psiquiátricos e não em ações de prevenção, cuidado comunitário ou programas de reinserção social e profissional.

Existem, porém, estudos que mostram que investir melhor pode trazer retorno. A Organização Mundial da Saúde estima que, para cada 1 dólar investido na ampliação do tratamento para depressão e ansiedade, há um retorno de cerca de 4 dólares em melhor saúde e capacidade de trabalho. Relatórios como o da Deloitte no Reino Unido indicam que programas de bem-estar e saúde mental podem gerar, em média, de 4 a 5 libras de retorno para cada 1 libra investida, principalmente por redução de afastamentos, presenteísmo e rotatividade.

É claro que quando esses programas são planejados de forma genérica, o impacto tende a ser menor. Estudos recentes sugerem que intervenções adaptadas à realidade de cada empresa, considerando nível de estresse, tipo de função, jornada, cultura interna e perfil dos times, trazem resultados mais consistentes, com melhora de sono, redução de estresse e queda em indicadores de presenteísmo entre funcionários com maior sofrimento psicológico. Em outras palavras, empresas que saem do modelo “pacote pronto” e constroem ações sob medida têm mais chance de ver, ao mesmo tempo, redução de custos e equipes mais engajadas.

Remédio, terapia ou meditação: o que realmente ajuda?

Diante de tantos sintomas e sofrimento, o que o mundo tem oferecido como resposta? Em geral, duas frentes principais: medicamentos psiquiátricos e psicoterapia. Nos últimos anos, práticas como meditação e atenção plena também entraram com mais força nessa conversa.

Medicamentos como antidepressivos, ansiolíticos, estabilizadores de humor e antipsicóticos podem salvar vidas e reduzir crises. Eles ajudam a diminuir sintomas muito intensos, facilitando o dia a dia de quem sofre. Terapias psicológicas, como a terapia cognitivo-comportamental, ajudam a pessoa a entender seus pensamentos, emoções e comportamentos e a experimentar formas mais saudáveis de lidar com a realidade. A combinação de remédios e terapia é, hoje, o padrão recomendado para muitos quadros.

Mas há limites claros. Remédios costumam atuar sobre os sintomas, e não sobre as causas sociais, econômicas e ambientais que muitas vezes estão na raiz do sofrimento. É difícil esperar que apenas uma pílula resolva os efeitos de um trabalho tóxico, de uma rotina de sono destruída, de uma cidade que suga o tempo e da insegurança constante de perder a renda. A terapia, por sua vez, pode ser um grande apoio, mas é cara e pouco acessível para muita gente. Em vários países, há falta de psicólogos e psiquiatras, filas longas e coberturas limitadas em planos de saúde. Em outros, o tabu e a falta de informação afastam pessoas que poderiam se beneficiar desse tipo de ajuda.

Nos últimos anos, programas de meditação e atenção plena ganharam espaço. Ensaios clínicos e revisões científicas apontam que práticas de mindfulness, quando aplicadas de modo estruturado, podem ter resultados comparáveis aos de algumas intervenções convencionais em casos leves e moderados de ansiedade e depressão, especialmente quando usadas junto com outras formas de cuidado. Uma meta-análise publicada na JAMA Internal Medicine, por exemplo, mostrou que programas de redução de estresse baseados em mindfulness produziram grande melhora em sintomas de ansiedade, depressão e dor, com efeitos semelhantes aos observados com o uso de alguns antidepressivos em quadros leves a moderados. Outra revisão sistemática, na revista Clinical Psychology Review, encontrou evidências de que intervenções de mindfulness ajudam a reduzir recaídas em depressão recorrente e melhoram a regulação emocional em diferentes grupos, incluindo trabalhadores sob alta pressão.

O perigo é transformar essas práticas em “curativos” usados apenas para manter as pessoas funcionando em sistemas que continuam adoecendo. É comum ver empresas criarem salas de meditação e oferecerem aplicativos de bem-estar, mas manterem as mesmas metas inalcançáveis, jornadas extensas e cultura de resposta imediata a mensagens fora do horário. A pessoa respira fundo, volta à cadeira e segue presa ao mesmo ciclo. Nesse cenário, até técnicas bem validadas pela ciência acabam virando paliativo, e não proteção real.

Uma saída mais honesta e promissora exige juntar o melhor da psiquiatria baseada em evidências com o melhor das tradições contemplativas, que há séculos estudam como treinar a atenção, cuidar da mente e se relacionar com pensamentos difíceis sem ser engolido por eles. Isso inclui olhar a mente como um fenômeno que envolve cérebro, corpo, respiração, contexto e cultura, não apenas como um conjunto de reações químicas isoladas. E, sobretudo, mudar o foco do “apagar incêndio” para a prevenção: em vez de usar mindfulness e outras práticas apenas para tentar remediar crises já instaladas, o melhor dos mundos é tratar a saúde mental dentro das empresas antes do problema aparecer, como parte da estratégia central do negócio.

Mesmo organizações que vivem apagando incêndios e lidando com resultados de curto prazo precisam olhar para isso: investir em programas consistentes de saúde mental, que combinem ambiente de trabalho mais saudável, formação em habilidades emocionais e práticas como mindfulness bem estruturadas, não é luxo nem modismo; é uma forma de reduzir o número de crises futuras, preservar pessoas-chave e construir uma base mais estável para qualquer resultado que a empresa queira alcançar.

Como sair do piloto automático e assumir responsabilidade pelo futuro da mente?

A crise global de saúde mental revela um paradoxo da nossa época. Em teoria, nunca tivemos tantas ferramentas para reduzir o sofrimento psicológico: medicamentos, terapias, pesquisas em neurociência, práticas de meditação, programas de bem-estar, conteúdos educativos. Na prática, nunca tantas pessoas pareceram tão cansadasansiosasvazias ou desmotivadas.

Buscar um único culpado é tentador, mas não ajuda. Culpar apenas “fraqueza individual” ignora o peso dos sistemas em que as pessoas vivem. Culpar apenas a economia, a tecnologia ou a política ignora que escolhas individuais e comunitárias também fazem diferença.

Os sistemas atuais, de trabalho, de educação, de alimentação, de moradia, de mídia, criam um contexto que aumenta o risco de adoecimento mental. Mas dentro desse contexto ainda existem espaços de ação: famílias que se apoiam, comunidades que se organizam, escolas que inovam, empresas que mudam rotas, pessoas que buscam ajuda e aprendem a cuidar melhor da própria mente.

A conversa entre o psiquiatra e o guru simboliza algo maior. Sociedades que dedicaram séculos a dominar o mundo externo, terras, máquinas, energia, dados, dedicaram muito menos tempo a aprender, de forma sistemática, a cuidar do mundo interno. Ler, escrever e fazer contas viraram habilidades básicas. Regular a atenção, lidar com emoções difíceis, observar pensamentos sem se perder neles e pedir ajuda quando necessário ainda são, muitas vezes, tratados como “dons” individuais ou questões de personalidade.

Se as projeções se confirmarem e a depressão e a ansiedade se mantiverem entre as principais causas de incapacidade nas próximas décadas, será difícil manter ganhos de produtividade, inovação e coesão social sem uma mudança mais profunda. Ensinar saúde mental nas escolas, tornar ambientes de trabalho menos destrutivos, melhorar a qualidade dos alimentos, reduzir exposições tóxicas, fortalecer redes de cuidado comunitário e investir mais em serviços de saúde mental deixará de ser visto apenas como gesto humanitário. Vai se tornar uma condição básica para que sociedades funcionem.

No fim da transmissão, o guru lembra que a humanidade é “uma vida microscópica neste cosmos” e que, em termos de universo, cada biografia é um instante. Essa frase pode parecer distante do cotidiano. Mas, na prática, ela convida a relativizar uma parte das urgências artificiais que nos mantêm em estado permanente de ansiedade.

A verdadeira irresponsabilidade talvez não esteja em ter crises, isso é humano. Está em tratar esse sofrimento como algo inevitável, como se não fosse possível mudar nada na maneira como vivemos, organizamos o trabalho, educamos nossas crianças e desenhamos nossas cidades.

O século XXI provavelmente será lembrado por suas invenções tecnológicas, vacinas, baterias, inteligência artificial e avanços científicos em geral. Se quisermos que ele seja lembrado também como o século em que aprendemos a conviver melhor com a nossa própria mente, será preciso ir além de remédios, aplicativos e frases motivacionais.

Será necessário trocar parte da compulsividade, de produzir, de consumir, de reagir sem pensar, por uma responsabilidade compartilhada sobre como pensamos, sentimos e organizamos nosso tempo. Essa conversa já começou. O próximo passo é transformá-la em ação concreta, em políticas públicas, em mudanças nas empresas e nas nossas rotinas diárias.